quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Good Morning, Midnight (Jean Rhys, 1939)

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise — you know!
How dreary — to be — Somebody!
- Emily Dickinson

***

Seguindo a linha de posts sobre leituras boas que fiz durante o semestre, agora é a vez de falar de "Good Morning, Midnight" (Bom dia, Meia Noite no português), um romance escrito por Jean Rhys. A trama gira em torno de Sasha Jansen, uma inglesa que resolve voltar para Paris depois de muitos anos. Paris representa para ela um "novo começo", pois está sem propósito ou rumo na vida.

A história de Sasha se situa em uma Europa pós primeira guerra e em rumo a segunda. Mudanças significativas estavam ocorrendo no mundo e consequentemente na vida das pessoas. De certa maneira, Sasha se sente sozinha e tão devastada quanto a Europa que ela encontra ao seu redor -- toda aquela destruição que veio com a guerra deixou nela uma sensação de desamparo, como se não pertencesse a lugar algum. Como ela mesma afirma em certa passagem do livro "Não tenho orgulho - sem orgulho, sem nome, sem rosto, sem pátria. Não pertenço a lugar algum. Triste, muito triste..." (44).

De quarto em quarto, bar em bar, rua em rua, sua vida foi sempre assim: sem rumo ou propósito definido "Este quarto horrível -- saturado com o passado... É todos os quartos em que fiquei, todas as ruas que já caminhei (...) Quartos, ruas, ruas, quartos..." (109). Em certo momento do livro a protagonista mapeia todos os lugares da Europa em que esteve antes de chegar em Paris: Londres, Amsterdam. Sempre com a esperança de uma vida melhor quando chegasse na França, sempre aquele sonho... O irônico é que ela também não pertence em Paris, pois chega lá e continua perdida; distante de tudo e todos.

Por isso seus relacionamentos são todos superficiais. Sasha está tão perdida dentro de si mesma que não consegue se conectar com outro ser humano. As pessoas que ela conhece durante o livro representam essa sensação de vazio e sentido nas coisas. Representam todos aqueles que estavam dispersos na Europa daqueles tempos. Até mesmo Enno, o único amor que teve, foi uma grande decepção para ela. Ex-soldado, provavelmente marcado pelas experiencias terríveis da guerra e incapaz de amar outra pessoa. Neste sentido Sasha e as pessoas que cruzam o seu caminho podem ser considerados um espelho para aquela Europa pós guerra "Salva, resgatada, fisgada, quase afogada e de volta a superfície do lago negro e profundo, roupas secas, cabelos lavados. Ninguém saberia que estive lá... Só que é claro que sempre fica alguma coisa. Sim, sempre fica alguma coisa" (10).

Das decepções, da falta de propósito e de auto-estima, dos quartos baratos de hotéis e ruas escuras de Paris é que chegamos no final do livro. Alguns amam, outros odeiam... mas o que importa é que vale a pena chegar lá. Fica a dica deste romance bem escrito, que apresenta um estilo bastante bonito: fluxo de consciência. Espero que gostem. E pra finalizar, vou deixar uma passagem, uma das que mais gostei:

"As pessoas falam de uma vida feliz, mas vida feliz é aquela quando você não se importa mais com viver ou morrer. Só se chega neste ponto depois de muitos anos e muitas decepções. E você acha que consegue ficar lá? Nunca. Quando você alcançar o paraíso que é toda essa indiferença, você será resgatado deste lugar. Do seu paraíso você terá que voltar para o inferno. Quando se está morto para o mundo, ele lhe resgata, nem que seja só para tirar sarro de você" (91).

Boa leitura.

***

2 comentários:

  1. Aiii quero ler! Mas só no segundo semestre do ano que vem! Ou não, quem sabe eu não leia antes! A Mari tinha colocado uns trechos no face e eu achei tão lindinhos!

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  2. Sim, o livro é super "quotable". Várias passagens lindas... esta última, inclusive, foi uma das que Mari postou no face. Lembro bem porque repostei.

    Se quiser ler antes, só pedir... te empresto com o maior prazer. Naquele package está também "A Room of One's Own", que é bem legal.

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