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Tem coisas que deveríamos deixar quietas. Coisas que gostaríamos que ficassem no passado, que não mais fizessem parte da gente. Mas nada é tão simples. Quanto mais se nega o problema, mais problema ele se torna. Quanto mais a gente corre, mais ele nos alcança. Tal coisa não fica quieta dentro da gente -- quanto mais se foge, mais se pensa. E então você deixa essa coisa se enraizar: definir sua personalidade, seu comportamento diante da vida e das pessoas. Sua experiência. Depois vem aquilo que parece a solução mais fácil: se trancar no quarto, fechar as janelas e ficar vendo filme no escuro. Porque trancada em casa não se corre riscos. Não existe perigo de rejeição, de dor, de experiências negativas. O filme te leva pra outra história, outra vida: não precisa pensar na sua. Tão bom (por 2 horas). E no escuro nada é claro, visível -- a gente pode mascarar a dor. Mascarar as coisas como elas são. Negação. Só que ao mesmo tempo se perde tanta coisa boa... coisa que faz crescer, que faz parte. O que fazer quando se sabe que várias coisas boas estão se passando; e mesmo assim seu medo é maior?
Então chega-se a um ponto.
No ponto de interrogação.
Por quanto mais vou deixar isso me afetar? Mas é que dói reviver o que tanto se nega... tão nitidamente. Ter que falar, verbalizar. Cada palavra, um espinho. Cada palavra, um filme que passa na cabeça. E depois, lidar com as várias vezes que aquilo continua a se repetir na sua mente. As horas, marcadas. Os dias, pesados. Mas é isso aí. Vamos lá onde dói. Onde assusta, onde paralisa. E esperar que resolva.
Tudo aquilo que eu esquecia ou negava, soube vagamente em plena queda, era o que eu mais era. — Caio Fernando Abreu
Pois é.
Tudo aquilo que eu esquecia ou negava, soube vagamente em plena queda, era o que eu mais era. — Caio Fernando Abreu
Pois é.
